A origem (Inception)
Por Érika dos Anjos
Depois de todo o tititi e bafafá envolvendo A origem (Inception), não pude me abster de ver a saga de quase 2 horas e meia no cinema. Procurei me despir de todos os comentários que ouvi e li, sejam positivos ou negativos, para poder prestar atenção na trama, o que foi totalmente necessário, e ter minha própria opinião. Sem mais delongas, tenho que admitir: o filme é muito bom. Para não dizer excelente.
A história do ladrão de sonhos que se perde em sua própria teia alcança vários níveis de percepção, com trocadilhos por favor. Leonardo di Caprio, o Dom Cobb, é proibido de voltar ao EUA onde foi acusado da morte da mulher. Sua única opção para poder voltar para os filhos é fazer um serviço para o empresário Saito (Ken Watanabe), que tem o “poder necessário”, leia-se dinheiro e corruptividade, para retirar todas as acusações. Porém, esse serviço envolve algo muito mais poderoso do que retirar informações da mente alheia. É colocar ideias na mente alheia, o que eles chamam de Inception.
A partir daí, Dom recruta o que há de melhor em especialistas no roubo de sonhos para conseguir colocar a ideia na mente do jovem Robert Fischer (Cillian Murphy), herdeiro da maior empresa de energia do mundo, concorrente direto do Saito. Fazem parte da equipe um bom químico para ajudar nos sedativos, Yussuf (Dileep Rao); um falsário de primeira, Eames (Tom Hardy); e uma nova arquiteta para os seus sonhos, Ariadne (Ellen
Page). No entanto, o fantasma de sua esposa, Mel (Marion Cottilard), e sua fixação por ele, pode acabar com tudo.
Com sequências de tirar o fôlego e edição primorosa do diretor Christopher Nolan (Batman e Amnésia), o filme te coloca para pensar desde o primeiro minuto, quando muitas informações são jogadas ao mesmo tempo na tela e você precisa, aos poucos, encaixá-las na trama. Até os momentos finais, quando tudo começa a se desenrolar (mais ou menos também), é necessário estar muito bem entendido do contexto e buscar nos diálogos dos personagens (sim, isso é vital para o entendimento completo do filme) as deixas e explicações que serão vitais para se
compreender todos os níveis de subconsciência e como eles chegaram lá.
Além do excelente roteiro, o filme preza pelas boas atuações. Sim pessoal, o Leonardo Di Caprio é um bom ator e tem escolhido muito bem seus papéis (os dois melhores filmes que vi este ano, A origem e A Ilha do Medo, são com ele). Mas, não é só o loirinho que se destaca. Marion Cottilard, com seu ar de diva, dá muita vida ao fantasma de Mel; Joseph Gordon-Levitt (de 500 dias com ela) se encaixa muito bem na trama, como fiel escudeiro do Cobb, assim como Cillian Murphy (que fez o Espantalho em Batman Begins) na pele de Robert Fischer; Ellen Page deixa para trás a menininha de Juno com louvor; Michael Cane é um brinde a qualquer cinéfilo, mesmo aparecendo bem pouco como pai de Dom Cobb; e, chegando onde eu queria, temos Tom Hardy, que faz de Eames, sem dúvida, o melhor personagem do filme com muito deboche, olhares maliciosos e carisma para dar e vender. Ele rouba a cena
quando aparece. Certamente, o britânico Hardy tem cacife para atuar em filmes interessantes daqui para frente (ele já está filmando o novo Mad Max) e ainda fará muitas mulheres suspirarem (assumo que já sou uma delas).
Enfim, A origem é um filme denso e complexo (para usar dois clichês de uma só vez) que faz com que você saia do cinema ainda pensando e discutindo os acontecimentos, fator vital para um bom filme de suspense/drama. Vale a pena ver. E se não entender de primeira, não se preocupe, veja de novo e de novo e de novo. Haverá desejo para isso. Só não incomode a pessoa que estiver na poltrona ao lado, pois se ela perder uma frasezinha do filme por sua causa, certamente, ficará irada! Fica a dica!

PS.: No mesmo dia (desempregada é fogo) também vi Meu malvado favorito e recomendo! É muito legal o filme para crianças e adultos, pois há algumas piadas que, definitivamente, não são para os pequenos. Um exemplo é que o subtítulo do Banco do Mal é Ex-Lehman Brothers. Alguma criança entende isso?
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Postado: August 12th, 2010 em Outros
por Érika dos Anjos.
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Comentários: 2
Comentários
Comment de Fernando
Time 16/08/2010 at 13:56
Eu acredito que todos os elementos desse filme servem como referência para a compreensão do todo. Inception está a anos-luz na frente de outros filmes





Comment de Guilherme Scalzilli
Time 14/08/2010 at 16:54
“A origem”
Mesmo que levássemos em conta apenas a superfície imediata do entretenimento, o filme superaria a média industrial hollywoodiana. Nem tanto por mérito do jovem e talentoso Cristopher Nolan, mas graças ao arrojo técnico empregado para contar sua história mirabolante. Os efeitos visuais atingem um grau de ilusionismo assombroso. A edição é exemplar. Prêmios técnicos não faltarão ao filme.
Há, no entanto, um pequeno detalhe.
A música “Je ne regrette rien”, cantada por Edith Piaf, surge freqüentemente, servindo a necessidades dramáticas. Os protagonistas a utilizam como uma espécie de gatilho para retornar das viagens pelos sonhos. Depois que os inconscientes foram devidamente treinados, basta-lhes ouvi-la e todos despertam imediatamente, salvando-se de apuros eventuais.
Mas trata-se também de uma referência exterior ao próprio filme: a canção desloca nosso raciocínio da personagem-chave “Mal” para sua intérprete, a francesa Marion Cotillard. Pois é impossível não lembrar a própria Cotillard no papel de Edith Piaf, cantando exatamente “Je ne regrette rien”.
Enquanto “Mal” só existe no mundo onírico, a identificação da atriz com seus trabalhos anteriores faz sentido apenas no plano dos espectadores conscientes. A citação extrai os personagens de suas imersões pela fantasia e ao mesmo tempo nos retira de “A origem” (ou do “sonho” representado pelo filme) para devolver-nos à realidade exterior.
Se qualquer outra canção preservasse o mesmo sentido conveniente à trama (“não lamento nada”), as lucubrações acima virariam delírios absurdos. Mas a escolha dessa música, entre inúmeras possíveis, é precisa e enriquecedora demais para soar casual. E assim descobrimos a essência do código metalingüístico em sua plena realização.
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