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Resenha: É fácil matar / Convite para a morte (Agatha Christie)

Por Érika dos Anjos

Ler Agatha Christie é sempre um prazer para mim. E dessa vez não foi diferente, apesar da pequena ‘mudança’ que percebi logo no início da leitura. Na minha estante, peguei um livro duplo da Rainha do Crime, com o título É facil matar / Convite para a morte. Com uma verdadeira referência comecei a juntar as letrinhas. E qual não foi minha surpresa ao perceber que o livro é escrito em português de Portugal, apesar de estar escrito que ‘A venda só pode ser feita no território dos Estados Unidos do Brasil’. Logo, um livro em português luso e antigo! Já me interessei no por fora da história.

É claro que não dá para fazer uma minuciosa resenha sobre os livros de Agatha, afinal, o grande charme da autora está nos pormenores, detalhes e miudezas que constroem os surpreendentes finais dos livros. Por isso, só vou dar uma pincelada nas duas obras e depois colocar um pequeno dicionário (hilário por sinal) das diferenças entre os ‘portugueses’ que encontrei.

É fácil matar

Neste livro, Agatha não coloca nenhum dos seus detetives principais, como Poirot, Miss Marple ou Tommy e Tuppence. Quem faz as investigações é Luke Fitzwilliam, um policial recém-aposentado. Durante uma viagem de trem, uma velhota desanda a puxar assunto com ele, falando que iria ao FBI denunciar uma série de homicídios que estão acontecendo na sua aldeia, mas ele pouco lhe dá ouvidos. Porém, alguns dias depois, Luke descobre pelo jornal que a mulher, que lembrava muito sua tia, foi inexplicavelmente atropelada. Então, com seus contatos dentro da polícia, ele descobre onde ela morava e vai à aldeia ver até aonde suas suspeitas tem fundamento.

Lá, ele se passa por um primo distante de uma mulher chamada Bridget Conway, que logo irá se casar com o falastrão editor do jornal local. Luke conhece também outro personagens interessantes, como o médico Thomas, a sra. Whiteflet, o coronel Horton e seus buldogues, entre outros. Sua grande dúvida é: como, em um lugar pequeno como esse, pode existir um assassino em série à solta?

Além da história em si, os grandes destaques da obra são a inclusão de um romance, algo raro nos livros da autora; o preconceito e a ideia corrente na época da inferioridade feminina, o que causa boas discussões na trama; e a citação honrosa a outro grande mestre da literatura policial mundial, Sir Arthur Conan Doyle, no seguinte trecho:
- Nesse caso, confessa que fez de propósito?
- É óbvio, meu caro Watson – responde Luke.

Convite para a morte

Logo no início do livro, já fiquei meio cabreira quanto ao título. Pois, se parecia muito com um dos enredos mais conhecidos de Agatha Christie. Depois de mais algumas folhas, tive plena certeza: Convite para morte nada mais é do que o grande Caso dos dez negrinhos! Fiquei boquiaberta, mas a revelação me deu um fôlego a mais na leitura.

O livro começa com o convite a oito pessoas de classes e origens bem diferentes, de alguém que eles basicamente não conhecem, para passar um tempo na Ilha do Negro. Lá, eles encontram um casal de criados, que também nunca viram o tal Sr. Owen, que manda suas instruções por escrito ou através do barqueiro. Chegando ao local, logo após as apresentações de praxe, eles são encaminhados aos seus respectivos quartos e, acima de cada uma das lareiras, está a seguinte história
em um quadro:

Dez negrinhos vão jantar enquanto não chove;
Um deles se engasgou e então ficaram nove.
Nove negrinhos sem dormir: não é biscoito!
Um deles cai no sono, e então ficaram oito.
Oito negrinhos vão a Devon de charrete;
Um não quis mais voltar, e então ficaram sete.
Sete negrinhos vão rachar lenha, mas eis
Que um deles se corta, e então ficaram seis.
Seis negrinhos de um cortiço fazem brinco;
A um pica uma abelha, e então ficaram cinco.
Cinco negrinhos no foro, a tomar os ares;
Um ali foi julgado, e então ficaram dois pares.
Quatro negrinhos no mar; a um tragou de vez.
O arenque defumado, e então ficaram três.
Três negrinhos passeando no Zoo. E depois?
O urso abraçou um, e então ficaram dois.
Dois negrinhos brincando ao sol, sem medo algum;
Um deles se queimou, e então ficou só um.
Um negrinho aqui está a sós, apenas um;
Ele então se enforcou, e não ficou nenhum.

Mesmo achando estranha a ornamentação, eles se reúnem para a janta e a situação começa a ficar mais do que intrigante pois, é colocada uma gravação onde as dez pessoas que se encontram na ilha, incluindo os criados, são acusadas de crimes que cometeram. A indignação é total, mas todos sabem, que há um fundo de verdade e loucura naquela história. E, naquela mesma noite, começam a cair os acusados, o primeiro deles Antony Marston.

Agora resta saber se quem está fazendo isso é alguém de fora ou se um deles é o culpado!Nesta obra, fica evidente a paixão de Agtaha Christie pelo modo de vida inglês e suas nunaces. Destaques para a língua de vaca enlatada (algo que não consigo nem imaginar, quanto mais consumir) e ideia de que os médicos tudo sabem e que não é necessário ter uma especialidade, já que o médico da casa, dr.
Armstrong, cuida desde envenenamento até tiro, passando por um acesso de nervos, que recebe como posologia um belo tabefe na cara de Vera Claythorne para se acalmar!

Depois de todas estas páginas, achei algumas pérolas das diferenças entre o português brasileiro e de Portugal. Veja e divirta-se abaixo:

  • Quanto a horário:

- Qual comboio (só isso já é esquisito, nós falaríamos trem)? O último que parou aqui foi das três e catorze.
- Claro. Aproveitei i das quatro e vinte cinco.
- Faltam cinco para dez e um quarto (não era muito mais fácil falar 10h10??????????)

  • Palavras que não usamos:

- Acabar-se-lhe-á (mas é muito hífen, meu Deus) a corda em breve ou continuará a desfiar o rosário (no sentido de falar) até o fim da viagem?
- Oxalá (aqui ela já seria vista como macumbeira) a desiludam com tacto, coitada

- Acredita em superstições? – perguntou a rapariga, com um sorriso tímido. (veja bem, cá nestas bandas, nunca que chamaríamos alguém com um sorriso tímido de rapariga… normalmente, elas tem o sorriso e várias outras coisas bem abertos)

- Entretanto, o outro prosseguia no seu solilóquio (está aí uma palavra que nunca pensei que existisse, mas com significado simples: monólogo)

- Não queria mesmo que Thomas se casasse consigo? (quase não consigo entender tantos ’s’ e pronomes na frase!)

- Lavínia não mo revelou (isso aparece toda hora. Como assim mo? Mo é como eu chamo meu marido de ver em quando…)

- Ele não pode ter feito isso. Afinal estava em um Rolls (Só porque o cara tinha o Rolls Royce não pode ter matado ninguém? E em itálico ainda por cima? Me lembrou uma vizinha minha que em vez de dizer que vai de carro, insiste em dizer que vai pegar o seu Zafira)

- Houve depois o caso daquele beberrão e rufia (essa aí quase que eu sabia o que era, porque lembrei de rufião e tal, mas para ter certeza, procurei certinho: é o mesmo que aproveitador)

- Um autêntico maná (primeiro, pensei em uma bebida, depois com a mente viajando, pensei nos manas que minha irmã compra no Priston Tale, jogo que ela é viciada, e não é que quase acertei!?!? Maná é uma comida de origem divina!)

- Tornou a guardá-lo na algibeira (também é muito usada e apesar de saber o que é, não conseguia explicar… somente pensava no coletinho do ministro Carlos Minc, mas, segundo o pai do burros, algibeira é  ‘um bolso que faz parte integrante da roupa’)

- Os seis negrinhos brincavam com um cortiço… (fiquei com a pulga atrás da orelha com essa. Afinal, cortiço para mim são aquelas casas grandes, que abrigam várias famílias em quartinhos e tal, aquela coisa bem Aluísio de Azevedo. Mas, vim a descobrir que cortiço também pode ser uma caixa de cortiça dentro da qual as abelhas fabricam a cera e o mel)

- Não temas o escuro da noite nem a flecha que fere ao dealbar da manhã.. (Olha, vivo há 26 anos e nunca soube que minhas manhãs tinham um dealbar. Até descobrir que isso é apenas aclarar, embranquecer, clarear)

  • Expressões hilárias:

- Mas, ele estava bêbado como um cacho (repetida incessantemente. Até já disse isso para um amigo meu…)

- Sim, reside aí o busílis (quando vi isso, pensei que fosse coisa do Mussum, inicialmente. Mas, depois fui procurar nos meu alfarrábios – boa também – e descobri que busílis é o mesmo que ‘a dificuldade principal na resolução de um problema’)

- No fundo, devia-se muito ao seu espírito buliçoso (pensei em várias coisas nesse momento, mas cheguei a conclusão de que não devia ser nada demais. E, batata! Quer dizer apenas inquieto)

- É capaz de resultar incaracterístico como uma peúga esburacada (Jesus amado! Não sabia que Agatha Christie escrevia palavrões em seus livros ou sou muito inculta! Segunda opção… essa tal de peúga esburacada é uma pequena meia esburacada… não é mais fácil assim?)

- Sim. Vestia uma sobrepeliz e sotaina vermelha. (Tudo bem, tudo bem. Não sou nenhum expert em moda, mas, pelo amor dos meus filhinhos, o que é é um sobrepeliz e uma sotaina, vermelha ainda por cima????? Somente São Google e São Aurélio para me responder. Sobrepeliz é uma vestimenta eclesiística feita de tecido leve e branco, que se usa sobre a batina e desce até o meio do corpo. Já sotaina é necessariamente a veste usada pelos padres… e ainda era vermelha)

- Por fim, rodou nos calcanhares e regressou ao rés-do-chão (o que seria isso?? E olha que aperece nos dois livros!! Nem mesmo no contexto consegui entender. Só mesmo depois de uma longa e tenebrosa procura consegui para de ficar rés-do-chão, dós-do-chão, mis-do-chão, fás-do-chão e por aí vai. Rés-do-chão é pura e simplesmente o andar térreo)

- A senhora Brent, direita como um fuso (O que seria estar direita como um fuso? Será que faltou o ‘para’ antes do ‘fuso’? Ou é de fuso horário? Ledas interpretações, direita como um fuso é reta como uma haste, um cabo, uma seta)

- O tal latagão de cabelos ondulados… (na hora, me pareceu um elogio ao personagem, mas fiquei pensando se latagão pode ser uma palavra que elogie alguém… e o Mr. Aurélio me respondeu que ele é uma homem alto e vigoroso… uia!)

- Blasfemando contra o reumatismo, o velho juiz subiu para o leito e deu volta ao comutador elétrico (Nossa, pensei dez milhões de vezes no que seria comutador elétrico. Um relógio? Um cobertor? Uma chave? Nem passei perto! Essa é braba. Comutador elétrico é um interruptor… só isso!!!!)

- Que sarilho! (Nunca, nunquinha mesmo ouvi isso na vida! Essa foi ótimaaaaaaa! Que sarilho! me pareceu muito com o nosso Que caralho! e é mais ou menos isso, quer dizer confusão, rixa, barulho, encrenca)

- Que maçada! (primo do Que sarilho!)

  • Palavras que já entraram no nosso vocabulário, mas que são tratadas como estrangeirismos:

- mise-en-scéne (fazer cena)
- bluff (blefe)
- Cadeira Queen Anne
- delito lèse-majesté (lesa-majestade)
- derby (corrida de cavalos)
- Far-west (Mais ou menos Velho Oeste)
- Cocktail (nem precisa de explicação né?)
- Savoir-faire (tudo bem que não se tornou coloquial, mas em diversos livros brasileiros já se utiliza a expressão, que quer dizer que sabe fazer, tem conhecimento de como é feito)
- Pequeno almoço (acho que seria nosso café da manhã, desjejum, coisas do gênero)
- tribú (nossa simples tribo)
- Ríjida (olha, desde que me entendo por gente, rígida é com ‘g’, mas vá entender…)
- Gostaria de lhes dar uma explicação acerca do pequeno Cyril, de quem eu era nurse (bom, aqui fiquei confusa, pois nurse em inglês é enfermeira, mas aqui o cargo dela era de preceptora. No fim, acho que a ideia era de ama ou algo de gênero mesmo)
- Chut!… Escutem!… (logo imagineu que seria um ‘aportuguesamento’ de Shout up – cale a boca em inglês – mas, procurei, procurei, procurei e não achei nenhuma referência a respeito. Vá entender)
- tricot (o bom e velho tricô da sua avó)
- Casa de banho (nosso usual banheiro)
- Términus (This is Spartaaaaaaaaaaaaaaa!)

Isso tudo sem contar os montes de ‘c’ e ‘p’ que entravam no meio das palavras: acto, exacto, óptimo e por aí vai; uns acentos bizarros como em ‘irónicamente ou trémula; e os momentos Mestre Yoda: ‘também eu’, ‘Isto o que é?”achas que desgostado ele ficará’ e tantas outras.

Ficha técnica:

  • Livro: É fácil matar / Convite para a morte
  • Autor: Agatha Christie
  • Editora: Livros do Brasil
  • Nº de páginas: 439
  • ISBN: 0
  • Sinopse: Matar é Fácil… Desde que ninguém suspeite da identidade do assassino e este não tenha escrúpulos morais. Tal é o título de uma empolgante investigação do superintendente Battles. Em Convite para a Morte (romance adaptado cinematograficamente pelo diretor René Clair: O Vingador Invisível), dez desconhecidos recebem um convite para encontra-se numa ilha deserta onde o extermínio os aguarda.
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Comentários

Comment de Léo Lago
Time 19/08/2009 at 17:32

E depois dizem que falamos português… Ainda bem que, com a nova reforma ortográfica, os livros daqui ficaram iguaizinhos aos de lá, né????? rsrs

Comment de diva suzete
Time 20/08/2009 at 12:37

Adorei a sinopse, dá uma vontade danada de ler o livro todo! Os comentários tb estão ótimos! Valeu!!!!!!!!!

Comment de Julio
Time 24/08/2009 at 17:17

Que língua mais complexa a nossa! Nossa! À nossa! Tim-tim!

Comment de Raphael Faria
Time 24/08/2009 at 17:46

Nossa querida uma delícia isso aqui, quanto a esse livro… hahahaha muito complexo! liguagem daqui e acolá… hahahaha! mais interessa! bjo p.s quero pastéis de siri da andré cavalcanti! hahahaha

Comment de Lu
Time 02/10/2009 at 19:16

Hilárioooo…me divirto aqui. bjocas

Comment de VF
Time 28/05/2010 at 22:38

- Chut!… Escutem!… (logo imagineu que seria um ‘aportuguesamento’ de Shout up – cale a boca em inglês – mas, procurei, procurei, procurei e não achei nenhuma referência a respeito. Vá entender)

é shut up não shout up .
e chut é um som nao uma palavra !

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