Por Érika dos Anjos
Já estava com vontade de escrever algo sobre Cazuza, na minha opinião, um dos maiores poetas da música brasileira. E na quarta-feira, dia 7, quando completou 20 anos sem ele me pareceu o momento ideal. Porém, um fato me chamou ainda mais atenção: a morte do produtor Ezequiel Neves exatamente no mesmo dia do seu pupilo. O que seria isso? Uma missão? Um escrito? Um chamado? Saudade da esbórnia? Prefiro acreditar na última opção…
Cazuza, ligeiramente entediado, pergunta para São Pedro:
- Pedrão, meu velho, tenho uma parada para te pedir.
São Pedro, já calejado dos pedidos do cantor, faz aquela cara de ‘manda lá’.
- Sabe o que é, tem um amigão meu, do peito, que está lá embaixo ainda. Sei que ele está sofrendo, cheio de problemas e como as coisas andam calmas por aqui, acho que você poderia chamar logo ele, né? – perguntou Cazuza, fazendo aquela irresistível carinha de cachorro abandonado.
O santo, que também não ficava imune ao carisma do Caju, como a avó chamava o pequeno Agenor, pensou um pouco e disse:
- Mas, Cazuza, você já tem tantos amigos aqui. Em 94, eu trouxe o Kurt Cobain; em 96, o Renato Russo; esse ano, chamei o James Dio… fora o pessoal da antiga, John Lennon, Janis, Hendrix, o Raulzito… – lembrou São Pedro, que já conhecia intimamente esse grupinho que vivia tirando um som nas nuvens mais pesadas.
Cazuza não se convenceu e começou a descrever a grande amizade que o unia a Ezequiel Neves.
- Mas, Pedrão, veja bem! O Zeca é meu parceiro de sempre. Foi ele que me colocou pra cantar, que me apoiou durante toda a carreira, que me mostrou o que era o bom rock and roll. Sabe aquela sua amizade com São João? Vira e mexe sei que o senhor está lá na área do Arraiá dele para ter um dedinho de prosa – falou Cazuza piscando o olho. São Pedro anuiu e ele continuou o discurso:
- Então! É disso que estou falando. De amigo do peito, daqueles que não podemos largar, que participou ativamente de todas as fases da vida. O Zeca é esse cara, Pedrão. Sinto tanta falta dele e ele está sofrendo, sentindo dor – disse Cazuza, com lágrimas nos olhos.
São Pedro, já não aguentando a ladainha de Cazuza, pensou nos argumentos que lhe foram dados e decidiu ajudar.
- Tá bom Cazuza, tá bom. Quando você quer que o traga?
- Pode ser no dia 7 de julho? É que foi quando o senhor me trouxe, sabe… há 20 anos. Aí, ficaria legal, meio místico o Zeca subir também nesta data.
- Sabia que você ainda iria querer mandar um recado pro seu pessoal. Nada com você é de graça, menino – brincou São Pedro, já se distanciando e rindo da ideia de Cazuza.
No dia 7, Cazuza estava inquieto, nervoso, ansioso pela chegada do amigo/irmão. Passou a primeira metade do dia, quieto, pensativo e distante, bem longe de sua habitual eletricidade. No início da tarde, São Pedro o chama com sua voz de trovão.
- Cazuzaaaaaaaaaaaa!
Ele olha para traz e se prepara para o sonhado reencontro. Cazuza e Zeca se abraçam e choram, felizes por estarem juntos novamente e tristes por terem ficado 20 anos longe um do outro.
São Pedro se emocionou com a felicidade dos dois e saiu de fininho para deixá-los à vontade.
Assim que o santo se distanciou o suficiente para não ouví-los, Cazuza explodiu em alegria e disse logo:
- Zeca meu camarada! Conheço um barzinho aqui perto que vende maná da melhor qualidade…
O céu nunca mais será o mesmo!

